O Rio Grande do Sul atravessa um momento delicado nas finanças das famílias. Os dados mais recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência das Famílias, divulgados pela Fecomércio-RS em parceria com a Confederação Nacional do Comércio, revelam que 86,7% das famílias porto-alegrenses estavam endividadas em abril de 2026, o segundo avanço consecutivo no indicador. O quadro é agravado por juros ainda elevados, inflação em aceleração nos itens essenciais e um comprometimento de renda que segue crescendo mês a mês. Neste artigo, analisamos o que os números revelam sobre a saúde financeira das famílias gaúchas, quem está mais vulnerável nesse cenário e quais são os caminhos possíveis para reverter essa trajetória.
Um Indicador que Não Para de Subir
O percentual de 86,7% de famílias endividadas em abril representa a segunda alta consecutiva após dois recuos observados no início do ano. Em março, o índice estava em 85,9%, e em fevereiro, em 84,7%. Apesar de ainda ficar abaixo do registrado em abril de 2025, quando o indicador chegou a 87,8%, a tendência de alta renovada acende um sinal de alerta importante: o processo de reorganização financeira que parecia ganhar ritmo no início do ano perdeu força.
É fundamental compreender o que a pesquisa mede. Os dados consideram exclusivamente dívidas associadas à tomada de crédito, como cartão de crédito, financiamentos e empréstimos. Contas de consumo como energia elétrica, água e telefonia não entram no cálculo. Isso significa que o endividamento real das famílias gaúchas pode ser ainda mais amplo do que os números já indicam, tornando o diagnóstico ainda mais preocupante do ponto de vista da saúde financeira doméstica.
As Famílias de Menor Renda Concentram o Risco
A leitura mais detalhada dos dados revela assimetrias importantes entre os diferentes grupos de renda. Entre as famílias com ganhos de até dez salários mínimos, o percentual com contas em atraso avançou levemente de 31,9% para 32,1% entre março e abril. Embora a variação marginal pareça pequena, o volume absoluto de famílias nessa situação é considerável, e a tendência de alta nesse grupo contrasta com a melhora verificada na faixa de renda superior.
As famílias com renda acima de dez salários mínimos, por outro lado, apresentaram recuo na inadimplência, passando de 8,5% para 7,5% no mesmo período. Ainda assim, esse grupo permanece em patamar significativamente mais elevado do que o observado em abril de 2025, quando o indicador era de apenas 4,7%. Isso sugere que mesmo os segmentos mais abastados ainda não conseguiram absorver completamente o impacto da alta nos custos do crédito verificada nos últimos meses.
O percentual de famílias que declararam não ter condições de pagar nenhuma parte das dívidas em atraso subiu de 1,7% para 1,8%. Embora continue em patamar historicamente baixo, a elevação consecutiva desse indicador ao longo de 2026 indica que uma parcela crescente dos devedores está chegando ao limite de sua capacidade financeira, sem margem para negociar ou parcelar o que deve.
Juros, Inflação e o Peso do Crédito no Orçamento
O diagnóstico da Fecomércio-RS aponta com clareza os fatores estruturais por trás do aumento do endividamento. O ambiente de juros elevados, que o mercado projeta como duradouro, encarece o custo de todas as formas de crédito, do cartão parcelado ao financiamento de veículo. Cada parcela que vence representa uma fatia maior da renda disponível, reduzindo o espaço para consumo e para a formação de qualquer reserva financeira.
A inflação recente em combustíveis e alimentos adiciona outra camada de pressão ao orçamento. Quando os preços dos itens de primeira necessidade sobem, a família que já opera no limite do seu orçamento precisa recorrer ao crédito para fechar o mês. Esse ciclo é bem conhecido pelos especialistas em finanças pessoais: a dívida que começa como solução emergencial torna-se um custo fixo que compromete meses ou anos de renda futura.
O presidente do Sistema Fecomércio-RS, Luiz Carlos Bohn, sintetizou bem a dinâmica ao afirmar que os resultados de abril mostram continuidade da alta do endividamento, especialmente entre os consumidores de menor renda, em um contexto que dificulta a reorganização financeira das famílias. O peso crescente das dívidas não afeta apenas o bem-estar individual: ele freia o consumo das famílias, que é um dos principais motores da economia estadual. Quando o orçamento doméstico está comprimido, o varejo sente, os serviços sentem e a geração de empregos desacelera.
O Que Esse Cenário Exige
A combinação de juros altos, inflação nos básicos e crédito caro cria um ambiente adverso para a reorganização financeira das famílias, mas não transforma esse objetivo em algo impossível. Priorizar o pagamento de dívidas de alto custo, como as do cartão de crédito e do cheque especial, renegociar prazos e taxas com os credores e criar um controle mensal detalhado das despesas são medidas que, ainda que exijam disciplina, têm impacto real e mensurável.
A trajetória dos indicadores ao longo de 2026 deixa claro que o problema não se resolverá espontaneamente com a passagem do tempo. O caminho para a redução do endividamento passa por decisões ativas das famílias e, igualmente, por políticas de crédito responsável e de educação financeira que alcancem especialmente os segmentos de renda mais baixa, que seguem carregando o peso mais pesado dessa crise silenciosa.
Autor: Diego Rodriguez Velázquez

